Agora acabado o período das festas, do convívio social/familiar, damos por nós a querer compensar os excessos alimentares cometidos nestas épocas. A compensar pelos doces, pela comida, pela falta de exercício físico praticado, compensar, compensar, compensar… Parece a palavra que mais nos atormenta. Contudo, o que estaremos nós a querer mesmo compensar?! Será que estamos apenas a seguir um padrão da sociedade? Estamos a querer combater fantasmas antigos? Não soube tão bem, comer sem preocupações, estar com família e amigos, o convívio com outros?! Porque nos pressionamos com metas e objectivos a curto prazo de perder peso, restringir o consumo de certo tipo de alimentos, se no fundo poderemos cumpri-los a longo prazo, sem que isso nos cause mal psicológico?!

O ideal do corpo perfeito imposto pela nossa sociedade e propagado pelos média leva as pessoas à insatisfação crónica com o seu corpo, culpando-se, muitas vezes, por alguns quilos a mais, ou adotando dietas altamente restritivas e exercícios físicos extremos como forma de compensar as calorias ingeridas em excesso, na tentativa de corresponder ao modelo cultural vigente (Andrade & Bosi, 2003).  Atualmente observa-se o crescimento de dietas e de comportamentos de risco, o que representa, individualmente, insegurança e insatisfação quanto ao corpo e, no coletivo, uma mudança rumo a novas formas de consciência da pessoa.

A imagem corporal pode ser definida como uma ilustração que se tem na mente acerca do tamanho, da aparência e da forma do corpo, sustentada por dois componentes: o percetivo, que corresponde as imagens construídas na nossa mente, e o atitudinal, que engloba os pensamentos e sentimentos em relação ao corpo (Slade, 1994). 

Muitas pessoas utilizam a alimentação para preencher espaços vazios na sua vida. Quem não tem uma amiga/amigo (ou até vocês mesmos), que se empanturrou de chocolate ou de qualquer outro doce/comida por estar chateado, triste, frustrado, … ? Agora imaginemos essa situação intensificada… Estamos perante alguém que não consegue elaborar e expressar as suas emoções, trocando essa atitude por comer compulsivamente, por exemplo.

Para Francine Prose (2004), a nossa obsessão pela saúde e o nosso medo da doença e da morte depositam falsas esperanças de que as dietas e os exercícios físicos concedem uma “vida eterna”. Tal percepção “demoniza” o acto de comer, especialmente se comermos em excesso. A obsessão pela comida e pelas dietas dita uma guerra entre o pecado/virtude, ao descontrole alimentar/autocontrole e à saúde/doença, que representam um modo contemporâneo de observação da natureza da gula como tentação nas sociedades ocidentais. 

Atualmente, “estar na moda” é, na nossa cultura, ter um corpo que personifique a beleza, ou seja, um corpo isento de gordura (seja magro ou musculoso) e de outras substâncias consideradas nocivas à saúde (o açúcar refinado, o sal, o glúten, etc). Entretanto, nem todos nós temos acesso a bens e a serviços de saúde e de estética ou, simplesmente, temos uma estrutura física que possa estar conforme os ideais de formato corporal ditados pela sociedade. Os que não conseguem acompanhar as “regras” dessa moda sofrem com diversos mecanismos de pressão social. Somos expostos às inúmeras informações veiculadas nos meios de comunicação social e redes sociais que apresentam dietas milagrosas, exercícios físicos, fórmulas anti-envelhecimento, cirurgias plásticas, entre outras técnicas. 

A baixa auto-estima bem como a distorção da imagem corporal são os principais elementos que fortalecem a busca constante para emagrecer obcessivamente, levando à prática de exercícios físicos, jejuns e uso de laxantes ou diuréticos de uma forma ainda mais intensa (Garfinkel e Garner, 1982, Holden, 1990).

As perturbações do comportamento alimentar são caracterizadas em termos sintomáticos pelo DSM-IV (APA, 1994) do seguinte modo: 

Anorexia nervosa

A característica principal desta perturbação é a recusa em manter um peso corporal acima dos limites “normais” mínimos, sendo este peso limite mínimo definido como 15% abaixo do peso esperado para a altura e idade do sujeito em causa. Para serem cumpridos os critérios de diagnóstico será necessária a presença, também, de um medo intenso de ficar gordo(a), mesmo que com peso baixo; uma restrição grave dos alimentos ingeridos muitas vezes acompanhada de exercício físico para provocar perda de peso; uma distorção no modo como o peso e a forma corporal são percecionadas; por último, em mulheres pós-púberes, observa-se uma amenorreia. 

Distinguem-se dois sub-tipos de anorexia nervosa: tipo ingestão compulsiva purga, em que existe ingestão compulsiva e comportamentos purgativos (vómito auto-induzido, uso de laxantes e diuréticos); e tipo restritivo, em que os comportamentos anteriores não estão presentes e a perda de peso é conseguida primariamente através da restrição alimentar. 

Bulimia nervosa

A principal característica desta perturbação são episódios recorrentes de ingestão compulsiva de grandes quantidades de alimentos associados a uma sensação de falta de controlo sobre o acto de comer. Aparecem associados a estes episódios uma série de comportamentos compensatórios como vómito auto-induzido, uso de laxantes e diuréticos, dietas, e exercício físico excessivo, acompanhados de uma preocupação excessiva com o peso e a forma corporal. São necessários pelo menos dois episódios de ingestão compulsiva por semana durante pelo menos três meses para ser atribuído o diagnóstico de bulimia nervosa. Tal como na anorexia nervosa a auto-avaliação está excessivamente dependente do peso e da forma corporal. 

O DSM-IV define também dois sub-tipos para a Bulimia Nervosa: tipo purgativo, em que existem comportamentos de purga (vómito, laxantes); e tipo não purgativo, em que se observa dieta restritiva ou exercício físico, mas não purga. 

De acordo com os critérios do DSM-IV não pode ser atribuído a um paciente o diagnóstico duplo de Anorexia e Bulimia Nervosa, sendo estabelecida uma primazia no diagnóstico da anorexia nervosa. Um diagnóstico primário de bulimia nervosa só pode ser feito na ausência de anorexia nervosa. 

Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP)

De acordo com os critérios do DSM-IV, o transtorno da compulsão alimentar periódica é caracterizado por episódios de compulsão alimentar recorrentes na ausência dos comportamentos compensatórios inadequados para evitar o ganho de peso observados na bulimia nervos. Durante o episódio de compulsão alimentar, há um sentimento de falta de controle sobre o comportamento associado à ingestão de grandes quantidades de alimento, mesmo que o indivíduo esteja sem fome, e, em geral, levando a um grande desconforto. Esse episódio é sucedido por um intenso mal–estar subjetivo, caracterizado por sentimentos de angústia, tristeza, culpa, vergonha e/ou repulsa por si mesmo. No CID-10 (OMS, 1994), estes episódios podem ser classificados em três atuais categorias: “Transtorno Alimentar não especificados (TANE)”, “Bulimia Nervosa atípica” e “hiperfagia associado a outros distúrbios psicológicos”. 

Factores contributivos para o desenvolvimento de doenças do comportamento alimentar:

Dinâmica familiar:

A influência do ambiente familiar sobre os transtornos alimentares é uma das dimensões mais valorizadas, sendo que factores familiares podem contribuir tanto para o desencadeamento como para a manutenção do transtorno. Alguns autores descrevem a existência de um padrão de confusão das fronteiras que definem os subsistemas familiares (parental, filial). Esse padrão seria marcado pela ausência generalizada de limites entre gerações e pessoas dos diferentes subsistemas, faltando a identidade e individualidade dos membros familiares, que apresentariam padrões inadequados de relacionamento interpessoal. Tais famílias exibiriam uma harmonia aparente que, na verdade, ocultaria graves conflitos subjacentes.

Meio sociocultural

No mundo atual as imagens do corpo esbelto/magra são cada vez mais cultivadas pelos meios de comunicação social, geralmente associadas pelo marketing à obtenção de sucesso e prestígio numa sociedade de consumo. 

A pressão cultural por ser e manter-se magro, seja apenas para atender a um padrão estético, ou pela exigência de certas profissões (moda, desporto), aliada à presença de uma baixa auto-estima, tornam a pessoas mais propensa a desenvolver um quadro de Anorexia ou Bulimia.

Tratamento
O tratamento cognitivo comportamental da anorexia nervosa (Garner, Vitousek, & Pike, 1997) desenvolve-se ao longo de três fases: 1) construção de uma relação terapêutica e estabelecimento do programa de tratamento, 2) modificação das crenças relativas à alimentação, ao peso e à forma corporal, e 3) prevenção da recaída e preparação da terminação do tratamento. 

O tratamento da bulimia nervosa assume, assim, a forma de um processo activo que envolve e implica a pessoa na sua própria mudança. O terapeuta, ao atuar como agente facilitador desta mudança, disponibiliza informação, educação, orientação, suporte e encorajamento. 

Na Mind Coaching iremos incluir uma série de procedimentos destinados a reduzir a restrição alimentar, e desenvolver estratégias comportamentais e cognitivas para resistir aos impulsos de ingestão/restrição alimentar compulsiva/excessiva. Estes procedimentos incluem, eliminação das ditas “dietas”, estratégias de resolução de problemas e reestruturação cognitiva. O foco passa a ser nas estratégias de prevenção da recaída e manutenção dos ganhos terapêuticos. Um dos principais objectivos é ajudar-vos a identificar e antecipar dificuldades futuras e preparar estratégias para lidar com elas. 

Bibliografia

American Psychiatric Association – APA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 4th ed. Washington (DC): American Psychiatric Association; 1994. 

Andrade, A., & Bosi, M.L.M., (2003). Mídia e subjetividade no comportamento alimentar feminino. Revista Nutrição; (16)1:117-25 

Garfinkel, P.E., & Garner, D. M., (1982). Anorexia nervosa: a multidimensional perspective. International Journal of Eating Disorder, 1, p. 3. 

Garner, D. M., Vitousek, K. M., & Pike, K. M. (1997). Cognitive beavioral treatment for anorexia nervosa. In D. M. Garner & P. E. Garfinkel (Eds.). Handbook of treatment for eating disorders. New York: Guilford 

Prose, Francine. Gula. São Paulo: Arx, 2004 

Slade, P.D., (1994). What is body image? Behav. Res. Ther.; 32(5):497-502 

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