Depressão pós-parto: na transição do estar grávida para o nascimento e os “baby blues”

Estar grávida, não significa ser mãe. Podemos até estar contentes por estarmos grávidas, podemos querer ser mães, queremos dar tudo o que temos ao nosso bebé. Começam a surgir as dúvidas, as questões, “e se…”, será que consigo. Deu-se o parto, chega o bebé, e queremos tudo menos festejar, só queremos é chorar… Não sabemos se estamos à altura. Aqui entram os “baby blues”. Logo após o nascimento (ou poucos dias depois) e podem durar até algumas semanas, pode ser por questões de desequilíbrio hormonal. Se persistirem por mais tempo poderemos estar a falar de depressão pós-parto. Vamos entender isto um pouco melhor… 

A maternidade (etapa entre o início da gravidez e os primeiros meses após o nascimento do bebé) tem sido vista como um determinado ponto do ciclo de vida comum à maioria das pessoas. É um período marcado por grandes mudanças e reestruturações (p.e., mudanças biológicas, psicológicas e interpessoais) para a mulher, e pela aprendizagem de novas competências, relacionadas com o desempenho dos novos papéis e tarefas (Canavarro, 2009). Apesar de o nascimento de um bebé ser um acontecimento culturalmente celebrado e estar geralmente associado a sensações de alegria e satisfação, as suas exigências podem precipitar a ocorrência/recorrência de perturbações de saúde mental (O’Hara, 2009).

A depressão pós-parto é uma patologia psíquica que afeta mundialmente cada vez mais mulheres. O conceito da DPP (Depressão Pós-Parto) também é entendido como uma depressão atípica que apresenta sintomas, como a ansiedade, a irritabilidade que muitas vezes encobrem a depressão e também a presença de algumas características e sintomas opostos ao da Depressão clássica, como a piora ao fim do dia e a insónia inicial que acomete principalmente as puérperas jovens ou de personalidade imatura. 

No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos mentais – DSM-IV, a descrição da depressão pós-parto encontra-se dentro da classificação do Transtorno do humor, caracterizado por um transtorno depressivo com início no pós-parto e está descrita como uma depressão iniciada dentro de quatro semanas após o parto. Já na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID 10, a DPP encontra-se dentro das categorias selecionadas na classificação de Transtornos mentais e de comportamentos associados ao puerpério (F53), com início dentro de seis semanas após o parto. 

Diversos estudos já realizados afirmam que a depressão pós-parto (DPP) é uma patologia oriunda de um conjunto de fatores biopsicossociais, dificilmente controláveis, que atuam de forma implacável no seu surgimento. Ressaltam ainda que a depressão pós-parto começa algumas semanas depois do nascimento da criança e deixa a mulher incapacitada, com dificuldade de realizar até mesmo as tarefas mais simples como as do dia a dia. Segundo Guedes-Silva, Souza e Moreira (2003) a depressão pós-parto é uma condição que afeta 10% a 15% das mulheres no pós-parto e atinge tanto a saúde da mãe quanto o desenvolvimento de seu filho. A manifestação desse quadro acontece, na maioria dos casos, a partir das primeiras quatro semanas após o parto, alcançando habitualmente sua intensidade máxima nos seis primeiros meses. 

Factores de risco (Robertson et al., 2004; O’Hara & McCabe, 2013). 

Fatores sociodemográficos 

O nível socioeconómico baixo (incluindo baixo rendimento e situação profissional da mãe) Apesar de algumas investigações apontarem a idade materna (mulheres mais novas ou mulheres mais velhas) e o nível educacional (habilitações literárias mais baixas) como fatores de risco para a DPP, outras não reportam essa associação. O estado civil (ser solteira) também tem sido considerado um fator de risco para a DPP, apesar de os resultados não serem consistentes. O número de filhos e a paridade não se têm revelado fatores de risco para a DPP. Falta de apoio familiar ou má relação conjugal.

Fatores obstétricos 

A literatura tem apontado uma associação fraca, mas significativa entre complicações obstétricas relacionadas com a gravidez (p.e., pré-eclampsia, hiperémese) ou com o parto (p.e., cesariana de emergência) e DPP. De forma menos consistente, tem sido também encontrada a relação entre DPP e gravidez não planeada/não desejada e amamentação. 

Fatores clínicos 

Relativamente aos fatores clínicos, a história prévia de psicopatologia (depressão ou ansiedade) tem influência no desenvolvimento de DPP. Adicionalmente, a investigação também tem demonstrado que a ansiedade e a depressão na gravidez estão significativamente associadas à ocorrência de sintomatologia depressiva no período pós-parto

Acontecimentos de vida stressantes 

A ocorrência de acontecimentos de vida stressantes (p.e., morte de um familiar próximo, divórcio, perda de emprego) tem sido apontada na literatura, de forma consistente, como um fator de risco para a DPP. 

Fatores psicológicos

Poucas investigações se debruçaram sobre a associação entre características de personalidade materna e a DPP. No entanto, o neuroticismo (p.e., mulheres descritas como “nervosas”, “tímidas”, ou “preocupadas”), o estilo cognitivo negativo (e.g., pessimismo, ruminação, a baixa autoestima e o perfecionismo) têm sido identificados como fatores de risco para a DPP. Por um lado, estas características de personalidade parecem tornar as mulheres mais vulneráveis aos stressores imprevisíveis e desafiantes da maternidade (e.g., dificuldades de alimentação do bebé). 

Sintomas

A sintomatologia mais comumente apresentada consiste em desânimo persistente, sentimentos de culpa, alterações do sono, ideias suicidas, temor de machucar o filho, diminuição do apetite e da libido, diminuição do nível de funcionamento mental e presença de ideias obsessivas ou supervalorizadas. 

Estratégias e tratamento 

Dê prioridade ao sono e descanso e crie rotinas saudáveis: ler um livro, dar uma caminhada, praticar exercício físico, uma boa alimentação, apanhar sol (de forma equilibrada e cuidada), fazer-se rodear por quem lhe quer bem, …

Quanto ao tratamento, apesar de poder recorrer à medicação, idealmente procure a ajuda de um terapeuta qualificado. 

Na Mindcoaching utilizamos uma intervenção psicológica online, onde podem ter associadas vantagens como: a flexibilidade (sem restrições de deslocação ou horário), ajuste às necessidades individuais; e a privacidade (contribuindo para a diminuição de sentimentos de estigma/vergonha). 

Curiosidade: Nos últimos anos, tem sido desenvolvidas intervenções psicológicas online para prevenção (Barrera, Wickham, & Munoz, 2015; Haga, Drozd, Brendryen, & Slinning, 2013) ou tratamento da DPP (Danaher et al., 2013; O’Mahen et al., 2013) em diferentes países (e.g., Austrália, Estados Unidos da América, Reino Unido), com resultados encorajadores quanto à sua eficácia. 

Referências bibliográficas

Barrera, A., Wickham, R., & Munoz, R. F. (2015). Online prevention of postpartum depression for Spanish and English-speaking pregnant women: A pilot randomized controlled trial. Internet Interventions, 2, 257-265. doi:10.1016/j.invent.2015.06.002 

Beeghly, M., Weinberg, M., Olson, K., Kernan, H., Riley, J., & Tronick, E. (2002). Stability and change in level of maternal depressive symptomatology during the first postpartum year. Journal of Affective Disorders, 71, 169- 180. doi:10.1016/S0165-0327(01)00409-8 

Canavarro, M. C. (2009). Uma perspetiva desenvolvimentista e ecológica sobre a adaptação na transição para a maternidade. Coimbra: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. 

Danaher, B. G., Milgrom, J., Seeley, J. R., Stuart, S., Schembri, C., Tyler, M. S., . . . Gemmill, A. W. (2013). MomMoodBooster web-based intervention for postpartum depression: Feasibility Trial Results. Journal of Medical Internet Research, 15, e242. doi:10.2196/jmir.2876 

Guedes-Silva, D.; Souza, M.; Moreira, V. & Genestra, M. (2003). Depressão pós-parto: prevenção e consequências. Revista Mal-Estar e Subjetividades, 3(2), p.439-450.

O’Hara, M. W. (2009). Postpartum depression: What we know. Journal of Clinical Psychology, 65, 1258-1269. doi:10.1002/jclp.20644 

O’Hara, M. W., & McCabe, J. E. (2013). Postpartum depression: Current status and future directions. Annual Review of Clinical Psychology, 9, 379-407. doi:10.1146/annurev-clinpsy-050212-185612 

Robertson, E., Grace, S., Wallington, T., & Stewart, D. E. (2004). Antenatal risk factors for postpartum depression: a synthesis of recent literature. General Hospital Psychiatry, 26, 289-295. doi:10.1016/j.genhosppsych.2004.02.006 

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